quinta-feira, 29 de agosto de 2013

VERDADEIROS OS AMIGOS...

a ti...
Os amigos entram, acomodam-se, instalam-se e ficam a morar cá dentro no nosso coração. Fazem-nos rir, fazem-nos chorar. Riem-se e choram connosco. São sinceros. São francos e leais. Chamam-nos à razão. Os amigos partilham momentos. Desabafam. Partilham sentimentos. Estão perto mesmo quando não estão. Os amigos pedem desculpa... quando erram, quando magoam, ou quando simplesmente precisam de o fazer.
Não há maus amigos, apenas bons! Se são maus é porque não são amigos, mesmo que ainda nos tenham tomado por tontos e nos tenham feito acreditar que um dia o foram. Os maus podem até ter ousado entrar em nós, acomodado, instalado e até terem ficado a morar um tempo cá dentro. Podem até ter sido os reis da casa. Mas, no fim da história, basta fecharmos os olhos e sentir quem realmente JÁ não moram cá dentro... Os maus acabam por deixar a casa livre para quem verdadeiramente merece ficar!

Obrigado aos que são e sabem ser verdadeiros amigos. Adeus aos que fogem!

Beijos abraços e sejam felizes...

Uma agradabelissima leitura A LUZ DA FÉ


Acabei de ler, a primeira encíclica do Papa Francisco (e simultaneamente a última de Bento XVI), Lumen Fidei - Luz da Fé. Apesar de o tema, a Fé, ser muito mais complexo do que os temas das três anteriores encíclicas (Deus Caritat Est - Deus é Amor, sobre o "Amor Cristão". Spe Salvi - Salvos na Esperança, sobre a "Esperança Cristã", Caritat in veritate - A Caridade na Verdade, sobre "o Desenvolvimento Integral na Caridade e na Verdade"), achei este texto muito mais simples, muito mais acessível, muito mais próximo. Não terá sido indiferente o estilo do escrevedor.

As quatro encíclicas papais parecem completar uma triologia alargada e enunciada na Epístola de São Paulo aos Coríntios: «Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.» 1 Coríntios 13:13
«Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, "cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus" (Heb 11, 10), porque "a esperança não engana" (Rm 5, 5).
Unida à fé e à caridade, a esperança projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que "fragmentam" o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperança.»
Na esperança enraizemos a nossa vida na FÉ.

Reflexão Dominical


Os Primeiros lugares

 

A HUMILDADE.

 

Na sociedade de hoje, é muito comum a procura dos PRIMEIROS LUGARES,

no campo político, social, profissional e outras atividades,

Isso cria muitas vezes um clima de concorrência e competição,

de ódio e conflitos.

As leituras bíblicas propõem nos um caminho diferente:

o caminho da HUMILDADE e da GRATUIDADE...

 

A 1a Leitura fala da virtude da HUMILDADE,

para ser agradável a Deus e aos homens,

para ter êxito e ser feliz.

 

* O texto propõe o caminho da humildade

como forma de "encontrar graça diante do Senhor. 

A humildade nasce da constatação de que "o poder de Deus é grande".

Fazer-se pequeno é reconhecer a grandeza de Deus e confiar nele.

 

A 2ª Leitura afirma que a vida cristã exige de nós

determinados valores e atitudes, entre os quais

a humildade, a simplicidade, o amor...

 

o Evangelho mostra que Jesus veio criar uma nova humanidade,

fundamentada no espírito da humildade.

 

Jesus é convidado para um banquete na casa de um fariseu... e aceita...

Mas fica profundamente impressionado com duas coisas que observa:

a corrida pelos primeiros lugares e o tipo de pessoas que foram convidadas.

E conta duas pequenas PARÁBOLAS:

 

+ A 1ª é para os convidados que escolhiam os primeiros lugares:

Aquele que ocupou o primeiro lugar teve de cedê-lo a um mais importante. Aquele que ocupou o último lugar foi convidado para um lugar melhor.

E Jesus conclui:

"Quem se exalta será humilhado e aquele que se humilhar será exaltado".

 

+ A 2ª é para quem convidara:

   "Quando deres uma refeição, não convides os que poderão retribuir te...

    Pelo contrário, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos...

   Terás uma recompensa na ressurreição dos justos..."

 

= Resumindo: Jesus propõe duas atitudes:

     - Na escolha dos lugares:        HUMILDADE...

     - Na escolha dos convidados: GRATUIDADE: Amor sem interesses...

 

1. O que Jesus observaria hoje?

 

Na Sociedade, há ainda hoje pessoas que correm atrás dos primeiros lugares?

- Escolhendo o trabalho que lhes dê mais lucro...

- procurando lugares que dêem destaque, status e importância;

- preferindo ocupações onde possam ter poder sobre os demais;

- ou ficando decepcionadas, quando ninguém lhes dá o "devido lugar?"

 

 Na Igreja, também existe a corrida pelos primeiros lugares…

A Igreja deve ser a comunidade onde se cultivam a humildade,

a simplicidade, o amor gratuito e desinteressado.  

- Mas de fato, é assim?

Ou assistimos às vezes uma corrida desenfreada pelos primeiros lugares:

pessoas cuja ambição se sobrepõe à vontade de servir…

Buscam títulos, honras, homenagens, lugares privilegiados,

e não o serviço humilde e o amor desinteressado.

 

- Na catequese, que Lucas nos propõe hoje, fica claro que as relações

entre os membros da comunidade de Jesus não se baseiam

em "critérios comerciais", mas sim no amor gratuito e desinteressado.

Só assim todos, inclusive os que não têm poder, nem dinheiro para retribuir,

terão aí lugar, numa verdadeira comunidade de amor e de fraternidade.

 

- Como é bonito numa Comunidade, onde há humildade... solidariedade... sintonia entre as diversas Lideranças, Pastorais e Movimentos...

Não gastaríamos então tantas energias em pequenas implicâncias

e disfarçado espírito de competição...

 

Na Política, existe também a corrida pelos primeiros lugares?

E essa corrida é um desejo sincero de serviço pelo bem do povo

ou uma busca de vantagens para pessoas ou grupos?

 

 

2. Quem são os NOSSOS convidados?

 

- Na Sociedade de hoje, costuma-se convidar quem garanta

  lucro... recompensa... poder... fama... posição social... elogios...

- Jesus convida nos a uma atitude de GRATUIDADE...

 

* Quando prestei um favor a gente simples,

   sempre gostei de ouvir de uma expressão: "Deus lhe pague!"

   Sim, o próprio Deus se torna o nosso grande FIADOR...

 

Um feliz dia de Domingo que Deus da Gratuitidadee do amor  lhe dê uma Boa semana

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sermão do Pão da Vida; a nossa VIDA!

Dou comigo a pensar...
Tantas vezes  a Palavra proclamada de Jesus é bem "forte", é tremendamente exigente, é difícil de suportar.
Deparamo-nos com a predilecção de Jesus pela Verdade, pela coerência, pela frontalidade, pela transparência de vida e de fé. Palavras do Mestre, bem duras, ao apelidar de hipócritas e maldosos a quantos preferem e escolhem uma postura "mascarada", uma vivência fingida ao olhar dos demais, permanecendo com um coração despedaçado pelo egoísmo e pela mentira, pela falsidade e pela duplicidade de vida!
Percebi, acolhi, aceitei e acreditei que essa Verdade maior que é a fidelidade a Deus é o caminho a trilhar...
Evidentemente que já o sabia, já o sentia; porém, não raras vezes "esquecemo-nos" do que vale mais, muito + mesmo! E interpretei a Palavra de Jesus como "mote" a sublinhar na vida da minha fé e na fé da minha vida.
Na verdade, que importará apresentar-me bem, digno, por fora, se o meu coração estiver desviado do Senhor Jesus?!
Que valerá a beleza dos paramentos, a impecabilidade da liturgia e das suas normas, se a minha alma estiver manchada pelo divórcio entre a e a vida concreta?!
De que servirão palavras eloquentes e sermões apelativos se depois a Verdade for uma palavra ou uma realidade que desconheço no meu peregrinar e no meu ser?!
Os "sinais dos tempos" são, por isso mesmo, bem claros: sou chamado, somos desafiados, à fidelidade do Evangelho, à paixão pela verdade, à experiência da frontalidade, à adesão à transparência da nossa vida. Somos convocados a entender e a acreditar que, como também diz a Escritura, que "importa obedecer antes a Deus dos que aos homens" e que, portanto, não importam nem interessam as imagens e as máscaras, os rostos distorcidos e mentirosos, as aparências piedosas e benfeitoras se, na verdade do nosso interior, Deus não tem um lugar de destaque, uma presença proeminente.
Pedi a Deus que me tornasse mais e + apóstolo desta Verdade; rezei para que cada um de nós optasse, definitivamente, por agradar antes a Deus do que aos homens, sejam eles o Senhor Bispo, o vizinho, aquele familiar... o amigo!
Se não houver Verdade na vida, simplesmente somos mentirosos!
As aparências são sempre prejudiciais; os esforços por manter uma imagem determinada estão sempre condenados ao fracasso!
O "carreirismo" social, profissional, religioso, clerical, é sempre um afastamento do Evangelho.
Afinal, somos sempre nós que escolhemos, isto é, que decidimos aquilo que queremos escutar do Coração de Deus: "vinde benditos de Meu Pai" ou, ao invés, "afastai-vos de Mim, vós que praticastes a iniquidade"!
"Os sinais" são bem explícitos...
Que Deus nos ajude a escolher a Verdade em detrimento da hipocrisia, a Alegria da fé à caducidade do pietismo alienado, a experiência da justiça ao abraço e cumplicidade com os egoísmos tantos que grassam no mundo e na Igreja.
E juntos, em Igreja, em Comunidade, em família de mulheres e de homens de Ervedosa, Casais e Sarzedinho, que caiem mas que se decidem a erguer-se, sigamos o Mestre, por mais exigente que nos pareça ser... só Ele é Caminho, Verdade e Vida para cada um de nós...

Meditando na Liturgia da Palavra

Reflexão XXI Domingo do Tempo Comum

A Salvação

 

A Liturgia propõe hoje o tema da SALVAÇÃO.

A Salvação é um dom, que Deus oferece a todos,

mas a porta para entrar no Reino é estreita.

 

As leituras bíblicas aprofundam esse tema:

 

Na 1a Leitura, o Profeta fala de uma Comunidade Universal.

Deus oferece a salvação a todas as pessoas e a todos os povos:

"Eu virei para reunir os homens de todos os Povos;

eles virão e verão a minha glória".

E acrescenta algo inaudito: "Escolherei estrangeiros devotos ao meu nome...

e os enviarei como missionários para anunciar a salvação".

 

A 2ª Leitura afirma que o homem encontra a Salvação em Deus e

deve deixar-se guiar  por ele. Como Pai, corrige e repreende

os que se desviam do bom caminho da Salvação para que alcancem

a meta final, a herança reservada a seus filhos.

 

No Evangelho, Jesus aponta o caminho da salvação.

 

- Começa com uma pergunta dirigida a Jesus:

   "São muitos os que se salvam?"

   Os judeus estavam convencidos de que só povo de Israel se salvaria...

 

- Jesus não responde à pergunta, dizendo o NÚMERO dos que se salvam...

  Prefere revelar o CAMINHO para a salvação.

  Fala que o banquete do "Reino" é para todos.

  No entanto, não há entradas garantidas, nem bilhetes reservados

  e estreita é a porta para entrar nele.

 

- Complementa o pensamento com uma PARÁBOLA:

  Um Senhor oferece um banquete.

  Todos podem tomar parte, porque é de graça. Todos procuram entrar.

  Alguns passam, outros não conseguem. A um certo ponto a porta fecha se.

- Quem está dentro? Os patriarcas... os profetas... o Padre Luis

  e uma multidão incontável, vinda de todos os lados...

- Quem está fora? Um grupo que conheceu o Senhor e

  pretende entrar de qualquer jeito, expondo os seus motivos:

  "Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças".

  E o Senhor não abre a porta e manda-os embora... 

  Não basta o privilégio de pertencer ao povo eleito...

 

- E, aos "convencidos" de ter a salvação garantida, conclui com um alerta:

  "Não vos conheço..."

 

+ A Salvação é oferecida para todos,

independentemente de raça, de condição social, econômica ou religiosa...

Deus oferece gratuitamente a Salvação, mas espera nossa resposta,

o nosso compromisso com os valores do Evangelho.

Basta acolher essa oferta, aderir a Jesus e entrar pela "porta estreita".

* Mas para muitos, a "porta estreita" não é muito popular...

  A felicidade encontra-se no poder, no êxito, na posição social,

  nos cinco minutos de fama que a televisão proporciona, no dinheiro...

 

Para passar pela PORTA ESTREITA, são necessárias duas coisas:

- Desfazer-se de muitas "gorduras", de tanta coisa desnecessária...

- Tornar-se pequeno, simples, humilde, servidor, como criança:

  "Quem não se fizer como criança não terá lugar no reino de Deus".

  Os de grande estatura e os gordos não passam...

 

 Um alerta:

Não haverá privilegiados, entradas garantidas, bilhetes reservados...

O ser cristão não é um meio mágico de salvação;

ela é o resultado do encontro entre o esforço humano e o dom de Deus.

Para salvar-se, não basta entrar na Igreja uma vez pelo Batismo,

mas querer entrar todos os dias pela "porta estreita"

da fidelidade à mensagem de Cristo e do Evangelho.

 

- Naquela hora, acreditem, não haverá desculpas:

Não serve ser apenas católico desde criança... Ir à missa todos os domingos, confessar-se com frequência, ajudar a Igreja...

Sou amigo do Padre Luis... do Bispo... 

 

- Naquela hora, poderá ter surpresa:

  "Não sei de onde és... afastem-se de mim...

  Há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos."

  = Estranhos entrarão na glória e "praticantes" excluídos do banquete...

 

+ São muitos os que se salvam?

Jesus não respondeu diretamente à pergunta quanto ao Número,

fala dos Destinatários da salvação e o Caminho para consegui-la":

A "porta estreita" do despojamento e da humildade...

 

Se olharmos apenas as exigências de entrar pela "porta estreita",

poderíamos ficar preocupados...

Mas sabemos que Deus é mais bondade e misericórdia, do que justiça.

Cristo garante-nos: "Eu sou a porta, quem entrar por mim, será salvo..."

E São Paulo garante-nos uma verdade muito consoladora:

"É vontade de Deus que todos os homens se salvem,

e todos cheguem ao conhecimento da verdade..." (1Tm 2,4)

A porta é estreita, mas está aberta...

 

Dia do Leigo e do Catequista

Saúdo nesse dia a todos os LEIGOS e CATEQUISTAS

que exercem esse precioso serviço na Comunidade.

Obrigado por tanto bem que realizam e pelas marcas de Deus que sempre deixam na nossa bela Comunidade Paroquial de Ervedosa do Douro.

Abraço da Paz é coisa de irmãos!

Fico deveras surpreendido quando na celebração da Eucaristia verifico que há irmãos que, aquando do Abraço da Paz, percorrem meia igreja para ir dar um beijo ou um abraço a um amigo que está do outro lado, ou à mãe e ao pai que ficaram nos bancos do fundo, mas que pelo caminho não estenderam a mão, o olhar, uma palavra ou um sorriso àquele irmão que conhecem e que estava mesmo ao lado... nem a nenhum outro, no caminho até à pessoa conhecida do outro lado da Igreja...

Quando assim é, o gesto deixa de ser Sinal! Deixa de ser PAZ...

De facto, em si mesmo, o gesto nada tem de mal, não fosse aquilo que tantas vezes evidencia: uma comunhão, uma relação, uma irmandade que não é capaz de passar dos laços do sangue...
e é uma pena, porque Jesus de Nazaré claramente desafia a fazer irmãos para lá dos laços do sangue, para lá do conforto das relações com aqueles que conhecemos bem...


Mas também fico encantado quando verifico que, de cada vez que alguém estende a mão, sorri e abraça aquele irmão que não conhece, o rosto de ambos ilumina-se numa alegria e paz que só podem ser coisa do Espírito, e sinal do Reino de Deus entre nós!
 
Um bom dia de abraços... para todos!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013


 
Eu, mais eu e (só) às vezes Deus

 

Já me zanguei com Deus muitas vezes.
Viro-lhe as costas e parto, rezingão, fingindo ter muito que fazer.

Ocupo-me, entretenho-me, perco-me em dias sem substância porque feitos só de mim.
E chego a convencer-me que a espuma dos dias é projeto que chegue.

 Se me esforço, consigo até, com persistente criatividade, descobrir mil razões que justificam a vacuidade.

 Oh!

Tantas ilusões, ambições... tanto caminho e tantas metas à minha espera...


Às vezes, é no meio da vertigem das horas vividas assim, em remoinho à volta do meu umbigo, que O pressinto, sereno e quieto, como quem espera que a birra passe à criança rebelde.

 Nada me diz, nem a nada me obriga. Mas sei que está ali, pacientemente, à espera.
E basta isso para que todo o vértigo espumoso caia por si, vazio de sentido.
Sei que o homem é tenda para Deus.
O que também  não me parece demasiado estranho.
Pois os rios também correm para o mar.

O que me assombra e desconcerta é que Deus se tenha feito homem para me falar de si em mim!
E quando me atrevo a empreender com Ele o caminho de regresso à casa paterna, descubro, perplexo, que sempre esteve à minha espera.
Porque És assim.. MEU DEUS!
 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM



Tema do 28º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre as escolhas que fazemos; recorda-nos que nem sempre o que reluz é ouro e que é preciso, por vezes, renunciar a certos valores perecíveis, a fim de adquirir os valores da vida verdadeira e eterna.
Na primeira leitura, um “sábio” de Israel apresenta-nos um “hino à sabedoria”. O texto convida-nos a adquirir a verdadeira “sabedoria” (que é um dom de Deus) e a prescindir dos valores efémeros que não realizam o homem. O verdadeiro “sábio” é aquele que escolheu escutar as propostas de Deus, aceitar os seus desafios, seguir os caminhos que Ele indica.
O Evangelho apresenta-nos um homem que quer conhecer o caminho para alcançar a vida eterna. Jesus convida-o renunciar às suas riquezas e a escolher “caminho do Reino” – caminho de partilha, de solidariedade, de doação, de amor. É nesse caminho – garante Jesus aos seus discípulos – que o homem se realiza plenamente e que encontra a vida eterna.
A segunda leitura convida-nos a escutar e a acolher a Palavra de Deus proposta por Jesus. Ela é viva, eficaz, actuante. Uma vez acolhida no coração do homem, transforma-o, renova-o, ajuda-o a discernir o bem e o mal e a fazer as opções correctas, indica-lhe o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva.

LEITURA I – Sab 7,7-11
Leitura do Livro da Sabedoria
Orei e foi-me dada a prudência;
implorei e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos
e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada.
Não a equiparei à pedra mais preciosa,
pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia
e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo.
Amei-a mais do que a saúde e a beleza
e decidi tê-la como luz,
porque o seu brilho jamais se extingue.
Com ela me vieram todos os bens
e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.
AMBIENTE
O “Livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante o séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helénico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o “justo” e o “ímpio” no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh).
Estamos em Alexandria (Egipto), num meio fortemente helenizado. As outras culturas – nomeadamente a judaica – são desvalorizadas e hostilizadas. A enorme colónia judaica residente na cidade conhece mesmo, sobretudo nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e de Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.), uma dura perseguição. Os sábios helénicos procuram demonstrar, por um lado, a superioridade da cultura grega e, por outro, a incongruência do judaísmo e da sua proposta de vida… Os judeus são encorajados a deixar a sua fé, a “modernizar-se” e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helénica.
É neste ambiente que o sábio autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu Povo. O seu objectivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.
O texto que nos é proposto integra a segunda parte do livro (cf. Sab 6,1-9,18). Aí, o autor apresenta o “elogio da sabedoria”. Este “elogio da sabedoria” pode dividir-se em três pontos… No primeiro (cf. Sab 6,1-21), há uma exortação aos reis no sentido de adquirirem a “sabedoria”; no segundo (cf. Sab 6,22-8,21), há uma descrição da natureza e das propriedades da “sabedoria”, aqui apresentada como o valor mais importante entre todos os valores que o homem pode adquirir; no terceiro (cf. Sab 9,1-18), aparece uma longa oração do autor, implorando de Jahwéh a “sabedoria”.
O que é esta “sabedoria” de que aqui se fala? É, fundamentalmente, a capacidade de fazer as escolhas correctas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem ao êxito, à realização, à felicidade. Na perspectiva dos “sábios” de Israel, esta “sabedoria” vem de Deus e é um dom que Deus oferece a todos os homens que tiverem o coração disponível para o acolher. É preciso, portanto, ter os ouvidos atentos para escutar e o coração disponível para acolher a “sabedoria” que Deus quer oferecer a todos os homens.
O autor deste “elogio da sabedoria” apresenta-se a si próprio como o rei Salomão (embora o nome do rei nunca seja referido explicitamente). Na realidade, o “Livro da Sabedoria” não vem de Salomão (já vimos que é um texto escrito no séc. I a.C., por um judeu da Diáspora, possivelmente de Alexandria); mas Salomão, o protótipo do rei sábio era, para os israelitas, a pessoa indicada para apresentar a “sabedoria” e para a recomendar a todos os homens. Usando uma ficção literária, o autor coloca, pois, na boca de Salomão este discurso sapiencial.
MENSAGEM
Salomão pediu a Deus a “sabedoria” e ela foi-lhe concedida (vers. 7). Há aqui uma alusão discreta ao episódio narrado em 1 Re 3,5-15, que conta como Salomão, ainda um jovem rei inexperiente, se dirigiu a um santuário em Guibeon e pediu a Deus “um coração cheio de entendimento para governar o povo, para discernir entre o bem e o mal” (1 Re 3,9); e Deus, correspondendo a este pedido, deu-lhe “um coração sábio e perspicaz” (1 Re 3,12).
Para o rei, a “sabedoria” tornou-se o valor mais apreciado, superior ao poder, à riqueza, à saúde, à beleza, a todos os bens terrenos (vers. 8-10a). Ela é a “luz” que indica caminhos e que permite discernir as opções correctas a tomar. Ao contrário dos bens terrenos, ela não se extingue nem perde o brilho (vers. 10b): é um valor duradouro, que vem de Deus e que conduz o homem ao encontro da vida verdadeira, da felicidade perene.
Contudo, a “sabedoria” não afastou este rei dos outros bens… Pelo contrário, a opção pela “sabedoria” fê-lo encontrar “todos os bens” e “riquezas inumeráveis” (vers. 11), pois a “sabedoria” está na base de todos eles. É ela que lhe permite gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os no seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a sua vida e a ditar as suas opções.
ACTUALIZAÇÃO
• A “sabedoria” é um dom de Deus que o homem deve acolher com humildade e disponibilidade. Ela não chega a quem se situa diante de Deus numa atitude de orgulho e de auto-suficiência; ela não atinge quem se fecha em si próprio e constrói uma vida à margem de Deus; ela não encontra lugar no coração e na vida de quem ignora Deus, os seus desafios, as suas propostas. O “sábio” é aquele que, reconhecendo a sua finitude e debilidade, se coloca nas mãos de Deus, escuta as suas propostas, aceita os seus desafios, segue os caminhos que Ele indica. Talvez um dos grandes dramas do homem do século XXI seja o prescindir de Deus e de passar com total indiferença ao lado das propostas de Deus. Dessa forma, construímos com frequência esquemas de egoísmo, de violência, de exploração, de ódio, que desfeiam o mundo e magoam aqueles que caminham ao nosso lado. Em que é que eu aposto: na minha “sabedoria” (que tantas vezes me conduz por caminhos de injustiça, de divisão, de sofrimento, de infelicidade) ou na “sabedoria” de Deus (que sempre me conduz ao encontro da vida plena e da felicidade sem fim)?
• Todos nós temos determinados valores que dirigem e condicionam as nossas opções, as nossas atitudes, os nossos comportamentos. A uns damos mais importância; a outros damos menos significado… O nosso texto convida-nos a ter cuidado com a forma como hierarquizamos os valores sobre os quais construímos a nossa vida… Há valores efémeros e passageiros (o dinheiro, o poder, o êxito, a moda, o reconhecimento social…) que não podem ser absolutizados. Eles não são maus, por si próprios; não podemos é deixar que eles tomem conta da nossa vida, condicionem todas as nossas opções, nos escravizem de tal modo que nos levem a esquecer outros valores mais importantes e mais duradouros. Os valores efémeros não servem para encher completamente a nossa vida de significado e não nos garantem a vida verdadeira. Têm o seu lugar na nossa existência; mas não podem crescer de tal forma que açambarquem todo o espaço livre no nosso coração e na nossa vida.
• O “sábio” autor do nosso texto garante-nos que escolher a “sabedoria” não significa prescindir de outros valores mais materiais e efémeros. Por vezes, existe a ideia de que acolher as propostas de Deus e seguir os seus caminhos significa renunciar a tudo aquilo que nos pode tornar felizes e realizados… Não é verdade. Há valores, mesmo efémeros, que são perfeitamente compatíveis com a nossa opção pelos valores de Deus e do Reino. Não se trata de nos fecharmos ao mundo, de renunciarmos definitivamente às coisas belas que o mundo nos pode oferecer e que nos dão segurança e estabilidade; trata-se de darmos prioridade àquilo que é realmente importante e que nos assegura, não momentos efémeros, mas momentos eternos de felicidade e de vida plena.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (90)
Refrão 1: Saciai-nos, Senhor, com a vossa bondade
 e exultaremos de alegria.
Refrão 2: Enchei-nos da vossa misericórdia:
 será ela a nossa alegria.
Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.
Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.
Manifestai a vossa obra aos vossos servos
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.

LEITURA II – Heb 4,12-13
Leitura da Epístola aos Hebreus
A palavra de Deus é viva e eficaz,
mais cortante que uma espada de dois gumes:
ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito,
das articulações e medulas,
e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração.
Não há criatura que possa fugir à sua presença:
tudo está patente e descoberto a seus olhos.
É a ela que devemos prestar contas.
AMBIENTE
Já vimos, no passado domingo, que a Carta aos Hebreus é um sermão destinado a comunidades cristãs instaladas na monotonia e na mediocridade, que se deixaram contaminar pelo desânimo e começaram a ceder à sedução de certas doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos… O objectivo do autor deste “discurso” é estimular a vivência do compromisso cristão e levar os crentes a viver uma fé mais coerente e empenhada.
Nesse sentido, o autor apresenta o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial.
O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da Carta aos Hebreus (cf. Heb 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que “acreditem” em Jesus – isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.
O texto que nos é proposto é uma espécie de hino a essa Palavra de Deus que Jesus Cristo veio trazer aos homens. O objectivo do autor, com esta reflexão, é levar os crentes a escutar atentamente a Palavra proposta por Jesus.
MENSAGEM
A Palavra de Deus transmitida aos homens por Jesus não é um conjunto de frases ocas, vagas, estéreis, que se derramam sobre os homens mas que “entram por um ouvido e saem por outro”, e que não têm impacto na vida daqueles que as escutam; mas é uma Palavra viva, actuante, transformadora e eficaz, que uma vez escutada, entra no coração do homem como uma espada afiada e transforma os seus sentimentos, os seus pensamentos, os seus valores, as suas opções, as suas atitudes.
Ao entrar nos corações, a Palavra de Deus torna-se também o juiz das acções do homem. Aí, no centro onde se formam os sentimentos, onde nascem os pensamentos, onde se definem os valores, onde são feitas as opções (de acordo com a antropologia judaica, é no coração que tudo isto acontece), a Palavra de Deus confronta-se com os desejos secretos do homem, com as suas verdadeiras intenções, com os valores a que o homem dá prioridade, com a sinceridade das posições que o homem assume na sua relação com Deus, com o mundo e com os outros homens… E a Palavra de Deus aprecia, discerne, pesa e pronuncia o seu julgamento sobre o homem.
A Palavra de Deus, mesmo que pareça frágil e débil, é uma força decisiva que enche a história e que traz ao homem a vida e a salvação.
ACTUALIZAÇÃO
• O autor do nosso texto pretende levar os seus interlocutores a escutar e a valorizar a Palavra de Deus que chega aos homens através de Jesus, pois só essa Palavra é salvadora e libertadora; só ela indica ao homem o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva. Qual o lugar e o papel que a Palavra de Deus assume na minha vida? Sou capaz de encontrar tempo para escutar a Palavra de Deus, disponibilidade para a discutir e partilhar, vontade de confrontar a minha vida com as suas exigências?
• A Palavra de Deus é viva, actuante, eficaz e renovadora – diz o nosso texto. Ela deveria ter um impacto positivo e transformador nas nossas vidas, nas nossas famílias, nas nossas comunidades, na sociedade à nossa volta… No entanto, a Palavra de Deus é proclamada diariamente nas nossas liturgias e continuamos a escolher valores errados, a erguer barreiras de separação entre pessoas, a marcar a nossa relação comunitária pela inveja, pelo ciúme, pela discórdia, a perpetuar mecanismos de injustiça, de violência, de exploração, de ódio… Será que a Palavra de Deus, depois de dois mil anos, perdeu a sua eficácia e a sua força transformadora? Não. O que acontece é que escutamos, acolhemos e apreendemos outras “palavras” e passamos com indiferença ao lado da Palavra de Deus. É preciso voltarmos a “escutar” a Palavra de Deus – isto é, a ouvi-la com os nossos ouvidos, a acolhê-la no nosso coração, a deixarmos que ela nos transforme e se expresse em gestos concretos de vida nova. Sem o nosso “sim”, a Palavra de Deus não encontra lugar no nosso coração e na nossa vida.
• A Palavra de Deus ajuda-nos a discernir o bem e o mal e a fazer as opções correctas. Ela ecoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir a nossa rota, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. Para que esta Palavra seja eficaz é preciso, contudo, que não nos fechemos nessa atitude de auto-suficiência que nos torna surdos àquilo que põe em causa os nossos esquemas pessoais; mas é preciso que, com humildade e simplicidade, aceitemos questionar-nos, transformarmo-nos, convertermo-nos.
• A nossa vivência de fé desenrola-se, muitas vezes, à volta de fórmulas de oração repetitivas, de práticas devocionais, de ritos fixos e imutáveis, de tradições cheias de pó, de grandes manifestações que, no entanto, têm pouca profundidade… E a Palavra de Deus é relegada, na experiência de fé de tantos crentes, para um papel muito secundário. É preciso que a Palavra de Deus esteja no centro da nossa experiência de fé e da nossa caminhada existencial. É ela que nos questiona, que nos transforma, que nos indica caminhos, que nos permite discernir a vontade de Deus a nosso respeito.

ALELUIA – Mt 5,3
Aleluia. Aleluia.
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
EVANGELHO – Mc 10,17-30
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou:
«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
«Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
‘Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
O homem disse a Jesus:
«Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
«Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-Me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico.
Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!»
Os discípulos ficaram admirados com estas palavras.
Mas Jesus afirmou-lhes de novo:
«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no reino de Deus».
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros:
«Quem pode então salvar-se?»
Fitando neles os olhos, Jesus respondeu:
«Aos homens é impossível, mas não a Deus,
porque a Deus tudo é possível».
Pedro começou a dizer-Lhe:
«Vê como nós deixámos tudo para Te seguir».
Jesus respondeu:
«Em verdade vos digo:
Todo aquele que tenha deixado casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras,
por minha causa e por causa do Evangelho,
receberá cem vezes mais, já neste mundo,
em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras,
juntamente com perseguições,
e, no mundo futuro, a vida eterna».
AMBIENTE
Depois de deixar “a casa” (cf. Mc 10,10), Jesus continua o seu caminho através da Judeia e da Transjordânia, em direcção a Jericó (cf. Mc 10,46), percorrendo um percurso geográfico que constitui a penúltima etapa da sua viagem para Jerusalém. Contudo, o caminho que Jesus faz com os discípulos é também um caminho espiritual, durante o qual Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. Desta vez, a questão posta por um homem rico acerca das condições para alcançar a vida eterna dá a Jesus a oportunidade para avisar os discípulos acerca da incompatibilidade entre o Reino e o apego às riquezas.
Na perspectiva dos teólogos de Israel, as riquezas são uma bênção de Deus (cf. Dt 28,3-8); mas a catequese tradicional também está consciente de que colocar a confiança e a esperança nos bens materiais envenena o coração do homem, torna-o orgulhoso e auto-suficiente e afasta-o de Deus e das suas propostas (cf. Sal 49,7-8; 62,11). Jesus vai retomar a catequese tradicional, mas desta vez na perspectiva do Reino.
MENSAGEM
A primeira parte do nosso texto (vers. 17-27) é uma catequese sobre as exigências do Reino e do seguimento de Jesus.
Um homem ajoelha-se diante de Jesus e pergunta-Lhe o que tem de fazer para “alcançar a vida eterna” (vers. 17). Não se trata, desta vez, de alguém que vem questionar Jesus para O experimentar: a postura do homem, a sua atitude de respeito, denunciam-no como alguém sincero e bem-intencionado, realmente preocupado com essa questão vital que é a vida eterna.
No Antigo Testamento, a ideia de vida eterna aparece, pela primeira vez, em Dn 12,2 e é retomada noutros textos tardios… Para alguns teólogos da época do judaísmo helenístico, os justos que se mantiverem fiéis a Deus e à Lei não serão condenados ao sheol (onde os espíritos dos mortos levam uma existência obscura, no reino das sombras), mas ressuscitarão para uma vida nova, de alegria e de felicidade sem fim, com Deus (cf. 2 Mac 7,9.14.36). A vida eterna de que falam os teólogos desta época parece já incluir a ideia de imortalidade (cf. Sab 3,4; 15,3). É provavelmente isto que inquieta o tal homem que se encontra com Jesus: o que é necessário fazer para ter acesso a essa vida imortal que Deus reserva aos justos?
A primeira resposta de Jesus não traz nada de novo e remete o homem para os mandamentos da Torah: “não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe” (vers. 19). De acordo com a catequese feita pelos mestres de Israel, quem vivesse de acordo com os mandamentos da Lei, receberia de Deus a vida eterna. O viver de acordo com as propostas de Deus é, também na perspectiva de Jesus, um primeiro patamar para chegar à vida eterna.
O homem explica, porém, que desde sempre a sua vida foi vivida em consonância com os mandamentos da Lei (vers. 20). É uma afirmação segura e serena, que o próprio Jesus não contesta. O homem não é um hipócrita, mas um crente religiosamente empenhado e sincero. Não há aqui, por parte deste homem, qualquer sinal de orgulho e de auto-suficiência; mas a sua atitude e as questões que ele põe mostram a sua inquietação, a sua procura, a sua busca da definição do verdadeiro caminho para a vida eterna. Jesus reconhece a sinceridade, a honestidade, a verdade da busca deste homem; por isso, olha para ele “com simpatia” (vers. 21) e resolve convidá-lo a subir a um outro patamar nesse caminho para a vida eterna: convida-o a integrar a comunidade do Reino.
Ora, esse novo patamar tem um outro grau de exigência… Jesus aponta três requisitos fundamentais que devem ser assumidos por quem quiser integrar a comunidade do Reino: não centrar a própria vida nos bens passageiros deste mundo, assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos mais pobres, seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega (vers. 21). Apesar de toda a sua boa vontade, o homem não está preparado para a exigência deste caminho e afasta-se triste. Marcos explica que ele estava demasiado preso às suas riquezas e não estava disposto a renunciar a elas (vers. 22). O homem de que se fala nesta cena é um piedoso observante da Lei; mas não tem coragem para renunciar às suas seguranças humanas, aos seus esquemas feitos, aos bens terrenos que lhe escravizam o coração. A sua incapacidade para assumir a lógica do dom, da partilha, do amor, da entrega, tornam-no inapto para o Reino. O Reino é incompatível com o egoísmo, com o fechamento em si próprio, com a lógica do “ter”, com a obsessão pelos bens deste mundo.
A história do homem rico que não está disposto a integrar a comunidade do Reino, pois não está preparado para viver no amor, na partilha, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para oferecer aos discípulos mais uma catequese sobre o Reino e as suas exigências. O “caminho do Reino” é um caminho de despojamento de si próprio, que tem de ser percorrido no dom da vida, na partilha com os irmãos, na entrega por amor. Ora, quem não é capaz de renunciar aos bens passageiros deste mundo – ao dinheiro, ao sucesso, ao prestígio, às honras, aos privilégios, a tudo isso que prende o homem e o impede de dar-se aos irmãos – não pode integrar a comunidade do Reino. Não se trata apenas de uma dificuldade, mas de uma verdadeira impossibilidade (“é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” – vers. 25): os bens do mundo impõem ao homem uma lógica de egoísmo, de fechamento, de escravidão que são incompatíveis com a adesão plena ao Reino e aos seus valores. O discípulo que quer integrar a comunidade do Reino deve estar sempre numa atitude radical de partilha, de solidariedade, de doação.
Marcos propõe-nos, depois, a reacção alarmada, ansiosa, desorientada, dos discípulos face a esta exigência de radicalidade: “quem pode, então, salvar-se?” (vers. 26). Em resposta, Jesus pronuncia palavras de conforto, apresentando o poder de Deus como incomparavelmente maior do que a debilidade humana (“aos homens é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível” – vers. 27). A acção de Deus – gratuita e misericordiosa – pode mudar o coração do homem e fazê-lo acolher as exigências do Reino. É preciso, no entanto, que o homem esteja disponível para escutar Deus e para se deixar desafiar por Ele.
Na segunda parte do nosso texto (vers. 28-30) os discípulos, pela voz de Pedro, recordam a Jesus que deixaram tudo para o seguir. A renúncia dos discípulos não é, contudo, uma renúncia que se justifica por si mesma e que tem valor em si mesma… Os discípulos de Jesus não escolhem a pobreza porque a pobreza, em si, é uma coisa boa; nem deixam as pessoas que amam pelo gosto de deixá-las… Quando os discípulos de Jesus renunciam a determinados valores (muitas vezes valores legítimos e importantes), é em vista de um bem maior – o seguimento de Jesus e o anúncio do Evangelho. Jesus confirma a validade desta opção e assegura aos discípulos que o caminho escolhido por eles não é um caminho de perda, de solidão, de morte, mas é um caminho de ganho, de comunhão, de vida.
Esta opção dos discípulos será sempre incompreendida e recusada pelo mundo. Por isso, os discípulos conhecerão também a perseguição e o sofrimento. As tribulações não são um drama imprevisto e sem sentido: os discípulos devem estar preparados para as enfrentar, pois sabem que terão sempre de viver com a oposição do mundo, enquanto se mantiverem fiéis a Jesus e ao Evangelho.
Aconteça o que acontecer, os discípulos devem estar conscientes de que a opção pelo Reino e pelos seus valores lhes garantirá uma vida cheia e feliz nesta terra e, no mundo futuro, a vida eterna.
ACTUALIZAÇÃO
• O que é preciso fazer para alcançar a vida eterna? Trata-se de uma questão que inquieta todos os crentes e que certamente já pusemos a nós próprios, com estas ou com outras palavras semelhantes. Jesus responde: é preciso, antes de mais, viver de acordo com as propostas de Deus (mandamentos); e é preciso também assumir os valores do Reino e seguir Jesus no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos. Isto não significa, contudo, que a vida eterna seja algo que o homem conquista, com o seu esforço, ou que resulte dos méritos que o homem adquire ao percorrer um caminho religiosamente correcto. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. Quando o homem vive de acordo com os mandamentos de Deus e segue Jesus, não está a conquistar a vida eterna; está, sim, a responder positivamente à oferta de vida que Deus lhe faz e a reconhecer que o caminho que Deus lhe indica é um caminho de vida e de felicidade.
• Quando falamos em vida eterna, não estamos a falar apenas na vida que nos espera no céu; mas estamos a falar de uma vida plena de qualidade, de uma vida que leva o homem à sua plena realização, de uma vida de paz e de felicidade. Deus oferece-nos essa vida já neste mundo e convida-nos a acolhê-la e a escolhê-la em cada dia da nossa caminhada nesta terra; no entanto, sabemos que só atingiremos a plenitude da vida quando nos libertarmos da nossa finitude, da nossa debilidade, das limitações que a nossa humanidade nos impõem. A vida eterna é uma realidade que deve marcar cada passo da nossa existência terrena e que atingirá a plenitude na outra vida, no céu.
• Na perspectiva de Jesus, a vida eterna passa pela adesão a esse Reino que Ele veio anunciar. Jesus, com a sua vida, com as suas propostas, com os seus valores, veio propor aos homens o caminho da vida eterna. Quem quiser “alcançar a vida eterna” tem de olhar para Jesus, aprender com Ele, segui-l’O, fazer da própria vida – como Jesus fez da sua vida – uma escuta atenta das propostas de Deus e um dom de amor aos irmãos. Toda a nossa caminhada, todos os nossos esforços, toda a nossa busca visam alcançar a vida eterna. Muitas vezes, a lógica do mundo sugere que a vida eterna está na acumulação de dinheiro, na concretização dos nossos sonhos de “ter” mais coisas, na conquista de poder, no reconhecimento social, nos privilégios que conquistamos, nos cinco minutos de exposição mediática que a televisão proporciona… Nós, crentes, sabemos, contudo, que os bens deste mundo, embora nos proporcionem bem estar e segurança, não nos oferecem a vida eterna; essa vida eterna que buscamos ansiosamente está nesse caminho de amor, de serviço, de dom da vida que Cristo nos ensinou a percorrer.
• A história do homem rico, que buscava a vida eterna mas não estava disposto a prescindir da sua riqueza, alerta-nos para a impossibilidade de conjugar a vida eterna com o amor aos bens deste mundo. A riqueza escraviza o coração do homem, absorve todas as suas energias, desenvolve o egoísmo e a cobiça, leva o homem à injustiça, à exploração, à desonestidade, ao abuso dos irmãos… É, portanto, incompatível com o “caminho do Reino”, que é um caminho que deve ser percorrido no amor, na solidariedade, no serviço, na partilha, na verdade, no dom da vida aos irmãos. Podemos levar vidas religiosamente correctas, frequentar a Igreja, dar o nosso contributo na comunidade, ocupar lugares significativos na estrutura paroquial; mas, se o nosso coração vive obcecado com os bens deste mundo e fechado ao amor, à partilha, à solidariedade, não podemos fazer parte da comunidade do Reino.
• Jesus confirma, no final do texto que nos é proposto, a validade desse caminho de renúncia e de desprendimento que os discípulos aceitaram percorrer. Mais: Jesus garante que não se trata de um caminho de fracasso e de perda, mas de um caminho que realiza plenamente os sonhos e as necessidades dos homens que O escolheram. Seguir o “caminho do Reino” não é, portanto, aceitar viver infeliz e sacrificado nesta terra, com a esperança de uma recompensa no mundo que há-de vir; mas é, livre e conscientemente, escolher um caminho de vida plena, de realização, de alegria, de felicidade. O cristão não é um pobre coitado condenado a passar ao lado da vida e da felicidade; mas é uma pessoa que renunciou a certas propostas falíveis e parciais de felicidade, pois sabe que a vida plena está em viver de acordo com os valores eternos propostos por Jesus.
• Jesus avisa aos discípulos que o “caminho do Reino” é um caminho contra a corrente, que gerará inevitavelmente o ódio do mundo e que se traduzirá em perseguições e incompreensões. É uma realidade que conhecemos bem… Quantas vezes as nossas opções cristãs são criticadas, incompreendidas, apresentadas como realidades incompreensíveis e ultrapassadas por aqueles que representam a ideologia dominante, que fazem a opinião pública, que definem o socialmente correcto… Precisamos, todavia, de estar conscientes de que a perseguição e a incompreensão são realidades inevitáveis, que não podem desviar-nos das opções que fizemos. Para nós, seguidores de Jesus, o que é realmente importante é a certeza de que o “caminho do Reino” é um caminho de vida eterna.

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 28º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. BILHETE DE EVANGELHO.
Um homem corre, põe-se de joelhos, questiona. Jesus lança sobre ele um olhar de amizade. E é porque o ama que Jesus é exigente, pedindo-lhe para renunciar a tudo para O seguir. Golpe de teatro: o homem vira-se, o seu rosto está triste. Se este relato ficasse por aí, seria desencorajante, como pensam os apóstolos, testemunhas da cena. Mas uma palavra de esperança pode levar a imaginar que este homem poderá reencontrar o seu sorriso e a sua espontaneidade: “Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível”. As exigências que Jesus propõe só podem ser realizadas à força de impulsos do homem, mas com Deus tudo é possível. Se o homem tivesse respondido: “Sozinho, nunca chegarei, Senhor, mas com a tua ajuda, creio que é possível!” Se assim fosse, teríamos nesse dia mais um discípulo, um discípulo feliz!
3. À ESCUTA DA PALAVRA.
Os apóstolos tinham com que ficar desconcertados… e nós com eles! É verdadeiramente necessário abandonar tudo, nada possuir, ser “pobre como Job”, ou como Francisco de Assis, para ser discípulo de Cristo? Mas isso é irrealista e impossível! Olhemos um pouco mais de perto! Na primeira parte do diálogo, o jovem comete o mesmo erro dos fariseus. Fica-se pelo “fazer”. Para eles, a Lei era a norma suprema e a sua observação escrupulosa, o único meio para obter de Deus a salvação. Religião severa e exigente, sem dúvida, que tinha a sua grandeza. Ora, Jesus convida o homem rico a passar para outro registo. De repente, não se trata de vida eterna a ganhar, mas de seguir Jesus. Como se a vida eterna fosse estar com Jesus! Eis a grande transformação que Jesus vem provocar. Não se trata primeiro de fazer esforços para obedecer a mandamentos, trata-se primeiro de entrar numa relação de amor com Jesus. Mais profundamente ainda, trata-se primeiro de descobrir que Jesus, Ele em primeiro lugar, nos ama. Eis porque a referência de Marcos é fundamental: “Jesus olhou para ele com simpatia (amor)”. É este olhar que transforma tudo. Jesus quer fazer compreender ao homem rico que lhe falta o essencial: deixar-se amar em primeiro lugar, descobrir que todos os seus bens materiais nunca poderão preencher esta necessidade vital para todo o homem de ser amado. Senão, é impossível aprender a amar. As riquezas são mesmo um obstáculo ao amor, porque este, para ser verdadeiro, diz ao outro: “Preciso de ti. Sem ti, serei pobre em humanidade”. As riquezas do homem impediram-no de ler tudo isto no olhar de Jesus. O homem partiu. Mas Jesus não lhe retirou o seu amor, acompanhou-o sempre com o seu olhar de amor, como o pai do filho pródigo.
4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Qual é o meu tesouro? No princípio desta Semana Missionária, em que queremos anunciar o Evangelho, tomemos a resolução de perguntar em cada dia da semana: qual é o meu tesouro? O que me faz viver? E sejamos verdadeiros na nossa resposta…